sexta-feira, 20 de julho de 2007

Capítulo IX

"Ele faz um gesto de assentimento com a cabeça e agradece - Obrigada, professora.
Dito o sumário e dou início à aula começando pela correcção do trabalho de casa. A Isabel, uma aluna extremamente bonita, dona de uns cristalinos olhos azuis, põe o dedo no ar - S'tora, eu li o texto em casa mas não consegui perceber muito bem a distinção entre a validade formal e material de um raciocínio.
- Muito bem, vamos lá ver isso - Durante meia-hora volto a explicar a diferença entre a forma e a matéria de um raciocínio e no final passo uma série de exercícios no quadro - O que eu quero que vocês façam é o seguinte: têm de avaliar estes raciocínios do ponto de vista formal e do ponto de vista material e justificar. Alguma dúvida?
Alguns alunos abanam negativamente a cabeça e começam a copiar do quadro os exercícios.
- Quinze minutos para a realização da tarefa - informo. Enquanto os alunos se afadigam na resolução dos exercícios , eu aproveito para observar melhor o novo aluno: o que mais se destaca nele é o cabelo louro - quase branco- que lhe cai em madeixas sobre os olhos e contrasta fortemente com a tez bronzeada. Ele está reclinado sobre o caderno e quando levanta a cabeça para copiar os exercícios do quadro, olha por entre os fios de cabelo, fazendo um trejeito para o lado. Um dos pulsos está adornado por várias pulseiras, feitas de missangas coloridas, e no outro destaca-se um grande relógio. Continuo a minha observação fascinada pelo estilo dele: as sapatilhas são da mesma cor da tee-shirt laranja, de uma marca de surf, e as calças apresentam uma profusão de bolsos. Ele volta a levantar a cabeça mas, desta vez, olha na minha direcção. Não sei se está a olhar directamente para mim porque não lhe consigo vislumbrar os olhos, mas por causa das dúvidas resolvo desviar a trajectória do meu olhar. O resto da aula, entre a correcção das tarefas e a continuação da matéria, passa num ápice. O toque estridente da campainha assinala o seu final e eu reúno rapidamente as minhas coisas, desejosa de tomar um café e ir para casa. Atravesso o átrio e dirijo-me directamente para o polivalente que é o local onde funciona o bar, tanto para alunos como para professores o que significa que há sempre uma grande confusão e barulheira, condimentada pela música da rádio da escola. Cruzo-me com alguns alunos do 10º ano que me lançam um sorriso e espero pacientemente pela minha vez de ser atendida. O grupo de alunos que está à minha frente é finalmente atendido e eu desvio-me para o lado para lhes dar passagem. Quando faço o movimento para me recolocar na fila alguém choca comigo. Preparo-me para deitar um olhar mal-humorado ao autor do empurrão mas ouço uma voz a dizer - Desculpe, professora.
Deparo com o meu aluno surfista parado mais ou menos ao meu lado. Ele afasta o cabelo dos olhos e vejo que são escuros, quase pretos. Quase podia jurar que ele tinha olhos azuis mas afinal nem todos os surfistas são louros, de olhos azuis. É bem mais alto do que eu e eu preciso de erguer ligeiramente a cabeça para falar com ele.
- Não a magoei, pois não?
Percebo que passou algum tempo entre o encontrão e a pergunta e que devo estar a fazer figura de parva, especada a olhar para ele - Não, não - respondo finalmente. Peço o meu café à funcionária de ar pouco simpático e encosto-me para o lado para lhe dar lugar. Ele pede um snack e após ser atendido atira-me um «até amanhã, professora». Devolvo-lhe a frase e começo a achar piada à sua boa-educação. Distraída com estes pensamentos, escaldo-me na chávena e interiormente solto um palavrão. Mexo e remexo o café, à espera que arrefeça, e enquanto isso o meu aluno volta a entrar no meu campo de visão. Está acompanhado por uma teenager de sedosos cabelos castanhos, alta e esguia. Ele passa-lhe um braço por cima dos ombros e eu percebo que será, certamente, a sua namorada. Fazem um casal bonito e eu penso que podiam fazer um daqueles anúncios, sempre repletos de jovens atraentes e cheios de estilo. Bebo, finalmente, o café e antecipo, com prazer, a imagem da minha cama aconchegante e do fim-de-semana que se avizinha. Decido mentalmente que nem que as minhas amigas me venham convidar para uma festa em Marte eu acederei a ir com elas. Irei passar os dois dias a dormir e a trabalhar para o estágio e cheia de convicção penso que é mesmo isso que tenho a fazer, até porque se aproximam as primeiras regências e eu vou ter mesmo que mostrar trabalho se não quiser ser a ovelha negra do estágio."

Capítulo VIII

"Ao fim de uma ou duas semanas de aulas percebi que a escola é um mundinho à parte que não tem absolutamente nada a ver com a minha realidade. Alguns dos meus colegas de profissão são pouco amistosos e alguns chegam a ser mal-educados, pelo menos, de acordo com as minhas regras básicas de boa convivência. Não me parece uma atitude propriamente cortês não corresponder a um bom-dia. Para além disso, foi com decepção que reparei que as conversas na sala de professores se resumem ou à vida escolar ou então aos maridos e filhos. Os outros grupos de estágio comportam-se como um rebanho obediente e também com eles não é fácil chegar à fala. Restam-me as minhas próprias colegas de estágio, mas curiosamente o meu horário não é coincidente com o delas e raramente nos cruzamos, a não ser quando temos efectivamente de reunir. Foi por ter feito esta constatação que resolvi começar a trazer o meu leitor de mp3 para matar os tempos livres que medeiam entre as aulas que tenho que dar, porque a realidade é que apesar de só ter duas turmas, há dias em que tenho que esperar pelo período da tarde para dar a aula seguinte. A primeira vez que me sentei no sofá e coloquei os headphones nos ouvidos, detectei meia-dúzia de olhares a fitarem-me com uma expressão surpreendida. Apeteceu-me imediatamente dizer-lhes que era mil vezes melhor ouvir Nirvana do que ser bombardeada com conversas de tupperware. Fecho os olhos, concentrando-me na música e tentando abstrair-me de tudo o que me rodeia, deixando o meu pensamento vaguear. Passados uns momentos abro os olhos e deito uma olhadela em redor, como para verificar se alguém me está a ler a mente. Noto que um colega me observa mal disfarçadamente e percebo que já não é a primeira vez que isso acontece. Não faço a mínima ideia de qual seja o nome dele, nem qual a disciplina que lecciona, mas também não estou muito interessada nesses pormenores. Torno a cerrar os olhos e delicio-me com a música. Como oportunamente referiu a minha amiga Maria «a vida sem música é como umas cuecas sem elástico». Na sua simplicidade, que é um apanágio próprio dela, a Maria acaba sempre por dizer grandes verdades. Imersa na música, o tempo acaba por passar rapidamente e preparo-me para a última aula do dia. Ao fim de meia-dúzia de aulas com as minhas turmas, o nervosismo inicial desapareceu completamente dando lugar a uma absoluta tranquilidade e é com naturalidade que atravesso o recreio, abrindo caminho entre bandos de miúdos barulhentos do 7º ou 8º ano. A minha turma do 11º ano espera-me junto à porta da sala e mentalmente esboço um sorriso. Como na última aula marquei três ou quatro faltas por atraso, hoje tenho uma comitiva de recepção. De facto, nada como passar à acção, ao invés de ameaçar eternamente e nada fazer. Alguns cumprimentam-me com um «olá s'tora» e o Lindo prontamente vem oferecer-me a sua ajuda para abrir a porta da sala. Respondo-lhe amavelmente que não precisa de se incomodar porque eu sou perfeitamente capaz de abrir uma simples porta. Deixo os alunos entrar antes de mim e depois de todos estarem dentro da sala fecho a porta. Foi uma estratégia que comecei a pôr em acção logo depois da terceira ou quarta aula, quando percebi que muitos deles ficavam na conversa à porta da sala e iam entrando aos poucos o que tinha como consequência eu não conseguir começar a aula enquanto todos não estivessem dentro da sala. Ainda não consegui acabar com a barafunda inicial, mas já aprendi a aproveitar para escrever o sumário enquanto eles tiram e não tiram os cadernos e depois é só ditá-lo quando eles já tiverem sossegado. É o que me preparo para fazer quando ouço um «posso professora?». Levanto os olhos em direcção à porta e deparo com um aluno, numa atitude expectante, com os livros debaixo do braço e um leve sorriso desenhado no rosto bronzeado. Os outros alunos começam imediatamente numa gritaria do tipo «Ei Joka! Tudo bem?». Imponho o silêncio e o Fernando sempre solícito informa - É o Joka, s'tora. O nosso colega que estava no Havai - De repente, lembro-me de efectivamente estar um dia destes a marcar falta ao aluno e os outros me terem dito que ele estava a participar num campeonato de surf no Havai. Na altura, achei que devia ser treta , mas agora, olhando para o aluno em questão começo a achar que devia ser mesmo verdade. Reparo que ele continua no umbral da porta à espera e rapidamente convido-o a entrar e a sentar-se num dos lugares que estão livres. Ele senta-se ao pé de uma miúda morena, de cabelo curtinho todo espetado, que faz um ar derretido e recebe olhares de inveja dos outros elementos femininos da turma.
- Como é mesmo o teu nome? - pergunto.
-Miguel, professora, mas todos me chamam Joka. Se a professora não vir inconveniente também gostaria que me tratasse assim.
Antes de eu poder dizer alguma coisa, o Fernando adianta-se - A s'tora não vê nenhum inconveniente, Joka, porque ela chama-se... - hesita, deita um olhar em redor e continua - Ainda não sabemos, mas todos lhe chamam Mel.
Atiro-lhe um olhar quase mortal e ele imediatamente diz - Desculpe, s'tora.
O aluno em questão sorri, de uma forma que eu interpreto como sendo delicada e eu resolvo dar início à aula - Muito bem Joka. Actualiza-te relativamente à matéria e qualquer dúvida que tenhas estou à disposição."

Capítulo VII

"(...) Tento disfarçar o meu entusiasmo e digo qualquer coisa sem interesse à Joana, enquanto pelo canto do olho vejo o vocalista a dar novas indicações aos restantes elementos da banda. O espectáculo continua e, de quando em quando, ele olha para mim e eu começo a achar piada à situação. No final, volto a bater palmas com força. Entretanto, a minha amiga enfia o braço dela no meu e conduz-me de regresso ao balcão do bar. Desta vez é ela a pedir mais dois Bacardis que o «meu barman» regista prontamente no cartão. Atira-me um sorriso e pisca o olho, enquanto atende outros clientes. Quando me viro para abandonar o balcão deparo com o fulano da banda mesmo à minha frente. Tem um copo de cerveja na mão e um sorriso malandro a bailar-lhe nos lábios.
- Tudo bem? - diz, em jeito de cumprimento.
Sou apanhada de surpresa e balbucio uma espécie de resposta também à laia de cumprimento.
- Percebi que gostas de música ou será que me enganei?
- Não, não te enganaste - respondo - Cantas muito bem - aproveito para acrescentar.
- Obrigada - agradece.
Fazemos as apresentações e conversamos um pouco. Enquanto isso, a Joana, impaciente e fartinha de estar ali, propõe que estiquemos a noite e que façamos uma paragem no Alabastro Bar (nota- o único Alabastro Bar que eu conheci ficava no Algarve. Este é inspirado nesse local). O Alabastro é um bar enorme que está aberto, pelo menos, até às quatro da manhã e que tem D.J. e pista de dança. A primeira vez que eu lá fui, à saída, perguntei ao porteiro porque é que aquele local se chamava Alabastro Bar, uma vez que eu não conseguia ver nenhuma diferença entre aquele local e uma discoteca. Ele respondeu-me que se chamava assim porque era um bar. Eu insisti, reiterando a minha ideia de que aquele sítio apresentava as características de uma discoteca. Ele, obtuso, volta a afirmar que é um bar porque se chama Alabastro Bar. Eu digo-lhe que o que ele acaba de fazer é uma petição de princípio e ele fita-me, boquiaberto, talvez julgando-me maluca. Afasto-me dizendo, teimosamente, que aquilo é uma discoteca.
Mais tarde, um amigo informou-me que o Alabastro era considerado bar porque só tinha autorização para estar aberto até às quatro da manhã. Considero que teria sido muito mais simples se o porteiro me tivesse dito isso.
Hesito acerca da sugestão da Joana e penso que tenho mesmo que me deitar cedo porque combinei com as minhas colegas de estágio um encontro para o dia seguinte para elaborarmos uns famigerados testes formativos, mas a minha amiga insiste, secundada pelo Luís (assim se chama o vocalista) que utiliza argumentos pouco plausíveis, do género «eu telefono-te amanhã, para te acordar». Imagino logo que aquilo é apenas uma desculpa para ficar com o meu número de telemóvel, mas acabo por aceder em acompanhá-los. O problema da noite é exactamente este: uma vez na noite é preciso uma grande força de vontade para voltar para casa quando todos os outros se ficam a divertir. Pagamos o consumo e eu aceno um adeus ao barman que finge ficar triste por eu estar de saída. Empurramos a porta e caminhamos para mais uma noite de loucura."

Capítulo VI

"Estou no meu quarto, diante do espelho do armário que me devolve a minha imagem reflectida. Aproximo-me mais e descubro uma inoportuna borbulha no queixo. Uso o lápis corrector e esbato com a ponta dos dedos o excesso de creme. Volto a afastar-me e contemplo-me: o piercing que tenho no umbigo brilha e eu passo levemente a mão por cima dele. O meu piercing tem uma história e foi feito quando eu me apaixonei perdidamente por um rapaz angolano, doce como um dia cálido de Primavera. Acho que estávamos fascinados pelo tom de pele um do outro, pela conjugação do marfim e do ébano e pela sensação que isso provocava em nós. Um dia, decidimos selar o nosso encontro e, em vez de trocarmos alianças, hábito que eu achava detestável, fizemos piercings. Afago-o com carinho enquanto aquelas lembranças me acodem à memória e penso que se não tivéssemos decidido seguir os nossos próprios caminhos, era possível que hoje eu vivesse em Luanda e não na pacífica cidade de Coimbra. No entanto, não foi o medo da violência, da corrupção, da degradação da cidade que me impediram de o acompanhar de regresso à sua terra natal. Foi antes o receio de uma cultura diferente daquela a que eu estava habituada e no seio da qual me tinha tornado gente. Eu que me considerava um baluarte na defesa das minorias, no ataque feroz à xenofobia e ao racismo e na promoção do multiculturalismo, repentinamente ficava apreensiva só com a ideia de viver num país que não fosse aquele onde eu tinha crescido. Não fiquei magoada por ele ter ido sem mim porque compreendi que teambém ele não podia viver para sempre fora da sua terra. Assim, guardei-o na gaveta das recordações reconfortantes e fechei mais um capítulo da minha vida. Isto tinha acontecido há mais de meio ano e desde aí eu não voltara a sair com ninguém. Apetecia-me passar um tempo entregue a mim mesma e ao meu mundo onírico que me alimentava sempre que a tristeza ou a lassidão se apossavam de mim. Os papéis soltos que se acumulavam na minha secretária eram os fiéis depositários desse meu estado de espírito. Hoje, no entanto, acedi aos insistentes apelos da minha amiga Joana e decidi acompanhá-la até a um bar.
Descemos a rua inclinada da minha casa e desembocamos na Praça da República; dali até ao bar são apenas umas centenas de metros o que nos possibilita um agradável passeio a pé para respirar o ar fresco da noite. Apesar de estarmos em Setembro, o tempo continua quente e seco e em Coimbra isso faz-se sentir de uma forma ainda mais intensa e só mesmo a noite acalma a opressiva temperatura. As ruas não apresentam o habitual movimento do tempo de aulas e alguns cafés encontram-se mesmo semi-desertos. É uma cidade pela qual me apaixonei . Gosto das ruas estreitas, talhadas em pedra e ladeadas por fileiras de pequenas casas que se acotovelam. Acho romântico o Jardim da Sereia e o Penedo da Saudade. Adoro o lamento triste das violas que, às vezes, chega até ao meu quarto, levado por uma onda suave de vento. Neste momento, não me imagino a viver em nenhuma outra cidade, ideia que enfurece a minha mãe que considera que eu devo voltar ao sítio onde sempre vivi, assim que termine o estágio. É um problema que eu sei que vou ter de resolver daqui a uns meses.
Chegamos à porta do bar e eu abandono estes pensamentos. Abro caminho, com cuidado, pelo meio de alguns grupos que àquela hora já preenchem o local e dirijo-me ao balcão para pedir uma bebida. Tenho que esperar atrás de uma morena alta e perfumada que haja uma brecha para me poder abeirar, o que acontece daí a uns segundos. Peço um Bacardi, prontamente servido pelo barman, que mo entrega com um sorriso. Estendo-lhe o cartão de consumo que me foi entregue à entrada e ele marca diligentemente uma cruz na respectiva coluna. Devolve-me o cartão e volta a sorrir-me. Eu retribuo e afasto-me, dando lugar a um indivíduo mal encarado. Olho em redor em busca da Joana, mas não a consigo avistar. Terá, certamente, encontrado alguém com quem trocar meia-dúzia de frases, o que não é nada difícil porque ela conhece dezenas de pessoas. Dou um pequeno gole na minha bebida e deixo correr os olhos pelo ambiente. O bar é novo mas não me agrada por aí além, revelando um pretensiosismo barroco com dourados a mais para o meu singelo gosto. Nuns nichos entrecortados na parede repousam alegados deuses do panteão hindu e, num esforço de visão, reconheço Vixnu. A um canto está montado um pequeno palco, que de momento se encontra vazio, apenas com os instrumentos, aguardando pelos seus legítimos donos. Dou mais um gole no meu Bacardi e encolho-me, tentando passar no meio de dois grupos barulhentos. Finalmente, vislumbro a Joana que pelo seu esticar de pescoço também deve andar à minha procura. Aceno-lhe e ela vem ao meu encontro. Aproveito para lhe dizer que o bar não me agrada e que me apetece ir embora. Ela ralha-me e convence-me a ficar, pelo menos, até começar a actuação da banda. Finjo que amuo e termino o Bacardi que aquece no copo. Volto ao balcão e desta vez não tenho que esperar. O barman que me atendera anteriormente volta a abrir um sorriso no rosto bonito e eu faço o meu pedido, dando-lhe novamente o cartão de consumo.
- São os dois para ti? - pergunta-me.
Apetece-me responder-lhe com um «achas?» mas decido não fazê-lo. Educadamente, informo-o que uma das bebidas se destina a uma amiga. Ele prolonga o olhar dele mais tempo do que o necessário no meu rosto e marca uma cruz no cartão - Posso saber o teu nome? - pergunta, afoito.
- Mel.
- Nell? - repete ele, mas trocando o «m» pelo «n» e dando uma entoação inglesa ao nome.
- Não. Mel - volto a dizer, habituada já à confusão - Como o das abelhas.
-Ah! Não costumas vir cá, pois não?
- Não, foi uma amiga que me trouxe - digo.
- Fez ela muito bem.
- Talvez- deixo escapar. Pouso os meus olhos nos dele e agarro nas duas bebidas - Obrigada.
- Não desapareças!
Eu rio-me e afasto-me de encontro à Joana. Iniciamos uma conversa sobre empregados de bar atrevidos, até se fazerem ouvir os primeiros acordes de uma guitarra. A primeira música é um cover de James Brown que não me entusiasma por aí além apesar de reconhecer que está bem interpretado. No final ouvem-se alguns aplausos e o vocalista agradece. Seguem-se outras músicas, mais ou menos conhecidas, e enquanto isso eu vou trocando olhares furtivos com o barman. Não que esteja especialmente interessada nele, mas apenas porque isso preenche a minha necessidade de auto-estima. Ouço com agrado a música que começa, um clássico que eu adoro, e no final aplaudo entusiasticamente. Pressinto que talvez tenha exagerado na minha manifestação de satisfação porque noto que o vocalista me fita com uma expressão divertida no rosto."

Capítulo V

" - S'tora, pode chegar aqui?
Volto a cabeça e deparo com um dedo espetado no ar. O seu dono tem um cabelo cheio de caracóis alourados e um ar rebelde estampado no rosto. Aproximo-me da carteira dele, tentando imaginar o que me irá perguntar.
- S'tora, já descobri o seu nome - atira ele com um ar atrevido.
Eu nem quero acreditar que ele me chamou para me dizer aquilo - Como é que te chamas? - inquiro para ganhar tempo.
- Lindorfo, mas todos me chamam Lindo. A s'tora também me vai chamar assim, não vai? - pergunta como se estivesse a lançar um desafio. Soam risos na sala e tento sair airosamente da rasteira que ele me passou - Se já descobriste o meu nome deves ter percebido que ainda assim não é tão mau como o teu - fito-o directamente nos olhos grandes e redondos que juntamente com os caracóis lhe dão um ar de boneco e concluo - Portanto, a ti chamam-te Lindo e a mim Mel, certo? - por momentos, acho que fui rude demais e que ele pode ter ficado ofendido comigo, mas ele abre um sorriso largo no rosto e diz em jeito de resposta - Certo, s'tora. Já agora, que idade é que tem?
Apetece-me perguntar-lhe o que é que ele tem a ver com isso, mas mudo de ideia e respondo suficientemente alto para que todos possam ouvir - A idade suficiente para ser vossa professora e por falar nisso que tal se passassemos às regras de funcionamento da sala de aulas? - coloco o ênfase na palavra «regras» e decido começar com o discurso que preparei na véspera - Em primeiro lugar, gostaria que todos fossem pontuais e que não façam dos atrasos uma constante. Quem se atrasar por sistema terá falta no livro de ponto.
- O que é atrasar-se por sistema? - pergunta um aluno com uma expressão enternecedoramente cómica.
- Como é que te chamas?
- Fernando.
- Fernando, custa-me a crer que um aluno do 11ºano não saiba o que é atrasar-se por sistema.
- S'tora, eu sei o que é atrasar-se sempre, mas não sabia que isso é atrasar-se por sistema.
Voltam a ouvir-se risos e eu resolvo não dar muita importância ao assunto. Assim, digo de uma forma natural - Agora já sabes. Em segundo lugar, gostaria que não mantivessem conversas transversais durante a aula e especialmente quando eu estiver a explicar a matéria.
- S'tora, o que são conversas transversais? - a voz pertence ao mesmo aluno e eu começo a perder a paciência. Percebo que ele está a tentar ser engraçado ou, se calhar, a testar os meus limites - Quando tiveres uma conversa dessas, não te preocupes que eu aviso-te - preparo-me para continuar, mas ele insiste - Ó s'tora, mas eu quero saber agora o que é, que é para não a ter.
Alguns alunos atiram-lhe comentários do tipo «Anjinho!» e eu considero que tenho que ser mais firme e directa - Ok, vamos falar de uma forma que todos entendam: não quero atrasos, não quero que falem uns com os outros durante a aula e escusam de me perguntar se têm de ficar o tempo todo em silêncio porque a resposta é obviamente negativa. Quando eu digo que quero silêncio na sala de aulas estou a referir-me, como é natural, ao facto de terem de estar atentos quando eu estiver a explicar a matéria. Como é lógico, eu não faço intenção de passar uma aula inteira a falar sem parar. Irei tentar diversificar as estratégias ao longo das aulas.
Uma aluna de óculos cor-de-rosa põe um dedo no ar.
- Como te chamas? - pergunto.
- Chamo-me Cátia. S'tora, vamos ver alguns filmes este ano?
- Vamos - respondo eu prontamente e logo a seguir penso que tenho de arranjar urgentemente um filme que esteja relacionado com algum tema da matéria.
- Que fixe! - exclamam meia-dúzia de alunos.
- Continuando com as regras de funcionamento da sala de aulas, quando alguém quiser intervir, primeiro põe o dedo no ar, como fez a Cátia, e espera a sua vez pera falar.
Imediatamente surge um dedo e verifico que pertence ao Lindorfo - S'tora, também vamos ouvir música?
- Quem sabe... respondo eu de uma forma evasiva, não querendo outra vez comprometer-me.
- Ó s'tora... - continua ele.
- Dedo!
- Ah! Desculpe - aponta o dedo para o tecto e prossegue - S'tora, de que tipo de música é que gosta?
Fico calada durante uns breves instantes enquanto lhe lanço um olhar contemplativo e mais uma vez resolvo ser directa - A minha idade e o tipo de música de que eu gosto não te interessam.
- Eh Lindo! - gozam os outros
- Que foi? - pergunta ele encarando os colegas e voltando a olhar para mim continua - Não, sabe o que é s'tora... é que eu nunca tive assim uma s'tora... e, prontos, 'tá a ver?
- Não, não estou a ver - digo friamente - Independentemente da minha idade e dos meus gostos musicais sou a vossa professora e, portanto, espero que as vossas perguntas estejam directamente relacionadas com a disciplina.
- Desculpe, s'tora.
- Vamos então continuar e sem interrupções desnecessárias - apresento mais algumas regras e passo sem delongas para os objectivos e conteúdos do programa. Subitamente sou sobressaltada pelo toque da campainha e, espantada, percebo que a aula chegou ao fim. Recolho rapidamente as fichas preenchidas e os alunos começam imediatamente a atirar os cadernos para dentro das mochilas e eu reúno igualmente os meus livros e coloco-os debaixo do braço. Alguns lançam-me um «Até amanhã, s'tora». Suspiro de alívio e consciencializo que sobrevivi ao meu primeiro teste. Enquanto fecho a porta da sala pondero se lidei bem com todas as situações que me surgiram e imediatamente se levantam algumas dúvidas: será que fui antipática demais ou, pelo contrário, terei dado muita confiança? O que é que eles terão achado de mim? Continuo absorta nos meus pensamentos e só volto à realidade quando ouço uma voz que me pergunta - Então, que tal correu?
Olho para o lado e deparo com a Maria João, minha colega de estágio - Olá! Vinha mesmo a pensar nisso. Acho que correu bem.
- Óptimo. A minha também correu bem.
Caminhamos par a par, trocando impressões sobre as respectivas turmas e enquanto isso eu vou olhando de relance para a maneira como ela traja: um tailleur que faria as delícias da minha mãe e a indispensável pasta. Imediatamente estabeleço uma comparação com a minha própria indumentária. Começo a perceber o que é que o Lindorfo queria dizer e dá-me uma vontade incontrolável de rir - Desculpa - digo após soltar uma gargalhada - Acho que estou a libertar toda a adrenalina acumulada durante a aula - Dou mais uma risada enquanto a Maria João me lança um olhar complacente e interiormente penso que me apetece sair dali o mais rápido possível e voltar ao meu mundo."

Capítulo IV

"A campainha retine e eu, qual cãozinho de Pavlov, levanto-me automaticamente e com um ardor crescente no estômago, pego no livro do ponto e encaminho-me em passo apressado para a sala de aulas. Apesar de estar morta de medo, prefiro mil vezes encarar logo o que me espera do que estar a protelar. Desço as escadas quase a correr e saio em direcção ao bloco D, que é o sítio onde vou ter a minha primeira aula. As zonas de circulação estão repletas de alunos e enquanto eu passo pelo meio deles, sinto alguns olhares em cima de mim. À medida que me aproximo do bloco D, percebo que a idade dos alunos que se encontram nas imediações aumenta e com ela, aumentam também os olhares e os comentários à minha passagem. Sinto um nervosismo cada vez maior e só me apetece fugir dali rapidamente. Abro caminho pelo meio de um grupo de alunas esbeltas que tagarelam sem parar e encontro-me diante da porta da sala. Abro-a com a chave que trago firmemente fechada na palma da minha mão e entro. Pouso o livro do ponto, o caderno e o manual sobre a secretária e espero em pé que todos acabem de se sentar. Na verdade, o que eu diviso à minha frente é apenas uma mancha indistinta, cujos contornos flutuam de cima para baixo. Aos poucos e poucos, a ansiedade vai-me abandonando e diferentes rostos começar a apresentar linhas mais definidas. Esboço um sorriso e tento clarear a voz para me apresentar e começar a fazer a chamada. Digo «tento clarear a voz» porque a realidade é que estou rouca, o que não tem nada a ver com o nervosismo, mas sim com uma noitada no dia anterior - Bom dia! - digo para começar. Os sussurros abrandam e cerca de trinta pares de olhos fitam-me - Em primeiro lugar, peço desculpa por não conseguir falar mais alto, mas como já devem ter percebido estou rouca - soam alguns risos. Ignoro-os e continuo - Gostaria de começar por me apresentar - faço uma pequena pausa e hesito entre Amélia e Mel, mas é apenas por uma fracção de segundos - Chamo-me Mel e sou a vossa professora de Filosofia. Imediatamente se levanta um burburinho e eu decido passar rapidamente ao assunto seguinte - Vou fazer a chamada para me ir habituando aos vossos nomes.
- S'tora, como é que disse mesmo que se chamava?
Levanto os olhos da lista de fotografias dos alunos e procuro quem fez a pergunta. É um rapaz com um ar perfeitamente normal e não um adolescente de ar ameaçador, como eu temi por momentos. Decido explicar de vez o pormenor do meu nome - Todos me tratam por Mel que é o diminuitivo do meu verdadeiro nome.
- Mas qual é o seu verdadeiro nome, s'tora? - insiste o mesmo aluno.
Resolvo lançar uma cartada - Desafio-te a ti e a todos os outros a adivinhar.
Quase de imediato, começa uma algazarra com vários alunos ao mesmo tempo a arriscar vários nomes, alguns deles completamente a despropósito. Percebo que não foi a melhor táctica e levanto, tanto quanto sou capaz, a voz para me fazer ouvir - Na próxima aula apresentam-me as vossas sugestões, pode ser? Por agora, vou eu passar a conhecer os vossos nomes - começo a fazer a chamada e, pela primeira vez, desde que entrei na sala, os detalhes do rosto de cada um dos alunos surge-me com relativa precisão. Metade são rapazes e a outra metade são, obviamente, raparigas. À medida que vou chamando os nomes, vou verificando a idade de cada um deles e chego à conclusão que três ou quatro não estão assim tão distantes da minha própria idade. Termino a chamada e, finalmente, sento-me para escrever o sumário e marcar as faltas, mas só agora percebo que devia ter assinalado quem está a faltar porque, entretanto, já me esqueci de quem não respondeu à chamada. Resolvo não marcar falta nenhuma e começo sim a escrever o sumário. Reparo que a minha mão treme enquanto desenho as primeiras letras e tento, a todo o custo, disfarçar. As palavras saem-me quase indecifráveis e cheias de feias arestas.
- Qual é o sumário? - pergunta uma voz feminina.
«Que estúpida» penso eu de mim própria; estou a escrever o sumário e esqueci-me de o ditar à turma. Mais um deslize que tento contornar rapidamente - O sumário é «Apresentação e preenchimento das fichas de caderneta. Ponto parágrafo. Regras de funcionamento da aula de Filosofia. Ponto. Objectivos, conteúdos e avaliação na disciplina de Filosofia.Ponto.» - enquanto dito o sumário ouve-se o ruído das folhas e dos cadernos a serem abertos e alguns pedidos de «empresta-me uma caneta».
- Professora, não apanhei a última parte - diz um aluno.
Volto a repetir a parte final do sumário e agarro nas fichas de caderneta para começar a distribuir. Enquanto circulo pelo meio das mesas vou prestando atenção a alguns pormenores: as mochilas atiradas displicentemente para o chão, os cadernos forrados com imagens que vão desde o surf até aos Slipknot, os telemóveis topo de gama pousados em cima das carteiras. Espero que eles terminem de preencher as folhas com os seus dados pessoais e sento-me na beira de uma mesa, numa postura informal. Vejo os olhares surpreendidos de alguns alunos e uma e outra cotovelada dos elementos masculinos da turma e concluo que não foi uma boa ideia. Volto a levantar-me e percorro com o olhar as paredes pintadas de um amarelo doentio e cravejadas de mensagens do tipo «Amo-te Vanessa do 7ºB» ou então outras mais explícitas do género «Comia-te toda...»"

Capítulo III

"Entro a medo e volto a apresentar-me.
- Ah! É a estagiária de Filosofia que faltava! - exclama um indivíduo barbudo e olheirento.
- Devia ter-se apresentado de manhã. Estiveram cá todos os orientadores de estágio para receber os formandos - atira uma mulher, numa voz aflautada, que trabalha afincadamente num computador portátil.
- Peço imensa desculpa, mas só cheguei à pouco - desculpo-me e logo de seguida arrependo-me do meu ar excessivamente subserviente.
- Como é que te chamas? - pergunta-me o indivíduo, ao mesmo tempo que mexe e remexe em pastas e dossiers.
- Mel - sinto os olhares de ambos pousados em mim e emendo desajeitadamente - Quer dizer, o meu nome é Amélia mas todos me chamam Mel.
- Pois aconselho-te a usares o teu nome quando te apresentares aos alunos. Já sabes que os miúdos são terríveis para trocadilhos e coisas do género - aconselha a mulher.
Aceno afirmativamente com a cabeça mas interiormente digo a mim mesma que nem todos os Conselhos Executivos do mundo me obrigarão a dizer aos alunos que me chamo Amélia. Parece que já os estou a ouvir a chamarem-me «professora Amélia».
- Ora bem, aqui tens o teu horário - diz o fulano das barbas, estendendo-me uma folha - Como sabes, as aulas começam daqui a quinze dias mas até lá vão realizar-se algumas reuniões, por isso é melhor estares atenta ao placard que está na sala de professores. É verdade, também te vou dar o número de telefone da Fernanda Gomes para poderes entrar em contacto com ela.
De repente, sinto-me confusa - Desculpe, mas quem é a Fernanda Gomes?
Ele olha para mim surpreendido - A tua orientadora de estágio.
Sinto-me completamente estúpida e coro, o que me deixa ainda mais irritada. Escrevinho nas costas do horário o bendito número de telefone e saio dali o mais rapidamente possível. Já cá fora percebo que nem sequer sei o nome da pessoa que falou comigo e sinto que todas as minhas expectativas foram goradas. Não era esta a recepção que eu esperava. Contava que me acolhessem de braços aberto, que perdessem uma hora comigo a detalharem todas as informações importantes sobre a escola e no final me levassem, em visita guiada, a conhecer as instalações. Uma vez que nada disso aconteceu, dirigo-me novamente à funcionária e pergunto-lhe pela sala de professores. Ela informa-me que fica no primeiro piso e, com surpresa, noto umas escadas nas quais não reparei quando entrei pela primeira vez no átrio. A sala de professores é uma divisão ampla, repleta de armários identificados por códigos, uma zona de estar com alguns sofás e várias mesas de trabalho. Ao fundo, três secretárias alinhadas e encostadas à parede servem de apoio a três computadores e a uma impressora. Sento-me num dos sofás só para sentir como é estar num local que durante toda a minha vida de estudante me esteve vedado. Imagino como será quando houver pessoas a falar todas ao mesmo tempo, pastas, livros e risos, uma vez que de momento a sala está vazia. Lembro-me que ainda não analisei com atenção o horário que me atribuíram e resolvo fazê-lo agora, mas quase desmaio de susto quando verifico que, pelo menos, às terças, quintas e sextas-feiras começo as aulas às oito e meia. Começo logo a imaginar, com pesar, que vou ter de me deitar cedo o que me deixa mortalmente aborrecida já que sou uma noctívaga feroz. Levanto-me do sofá, suspirando, e guardo cuidadosamente a folha do horário na minha mochila. olho mais uma vez em meu redor e decido que por hoje já chega de escola."